3/03/2022
Geral.

Xepa x VIP: O BBB e a inflação no bolso dos consumidores

Voltado para o entretenimento, o Big Brother Brasil é uma franquia de sucesso que já chegou a sua 22ª edição em 2022. Todo ano um dilema invade as conversas dos brasileiros: o BBB é apenas uma brincadeira fútil ou ele apresenta algo além disso? Quando arguido sobre minha visão, de imediato eu afirmo, o “Grande Irmão” entrega muito além do que um produto super rentável e popularesco. Para além do negócio televisivo, ele acaba constituindo uma arena de exposição da sociedade atual, capaz de promover debates intensos na população, bem como, de aprofundar assuntos que outrora encontravam-se superficiais ou adormecidos.


Debates sociais ganham força no BBB

Nessas mais de duas décadas, pudemos observar pelos olhos das câmeras que o pueril mundo das celebridades até tem lugar cativo nesse formato de programa, mas a sociedade tem sido representada na sua pluralidade e seus desafios, muitas vezes, descomunais, são discutidos e visitados pelo público, que no conforto de seu lar é convocado a refletir. Como exemplo de forte contraste, vamos estabelecer uma comparação entre as edições de 2011 e a atual. Na 11ª competição, foi incluída no casting a primeira mulher trans, Ariadna Arantes, uma cabeleireira eliminada no primeiro paredão. Salvo o dissabor da derrota, ela teve que encarar o preconceito e o deboche público, que na época virou destaques em vários veículos de comunicação, como na publicação do jornal carioca Hora Extra, que trouxe em sua capa uma foto da participante com a seguinte manchete: ARIADNA´S COIFFEUR – CORTO CABELO E PINTO. Minimamente, é possível afirmarmos que houve uma evolução no que diz respeito aos direitos humanos. Nesse BBB22, estamos presenciando a participação de Lina Pereira dos Santos, a cantora, compositora e atriz Linn da Quebrada. Com uma carreira em ascensão, ela mesma se apresenta como travesti. Por mais que enfrente muitos preconceitos, ela e a comunidade LGBTQIA+ já encontram duas palavras e um amparo legal que Ariadna não encontrou, o entendimento do que é a transfobia e a homofobia.

Longe de estarmos numa posição confortável ou, até mesmo, vivendo em uma sociedade que se comporte com naturalidade diante das diferenças humanas, mas é possível dizer que assuntos delicados saíram da escuridão e ganharam a luz, é esse o primeiro passo para a evolução. Sendo assim, vejo no BBB outros debates, às vezes apresentados com maior sutileza e longe das grandes polêmicas, mas com enorme importância social. 


Xepa x VIP

Vejam vocês a divisão entre Xepa e VIP, uma dinâmica semanal e importante do jogo. Em geral, o líder da semana tem o privilégio de viver com conforto e, também, pode trazer consigo seus aliados para desfrutarem de uma bolha repleta de benesses, eis o VIP. Isso ocorre pelo fato de que aqueles que não são escolhidos para o seleto grupo, são obrigados a viver em uma realidade completamente oposta, a Xepa. O principal impacto está ligado à comida e a forma com que as compras dos mantimentos são feitas. Além de ganhar uma quantidade bem menor de estalecas (moeda do BBB), o grande castigo para os “xepados” é na hora de fazer as compras no mercado, pois a lista às quais esses participantes têm acesso é composta por produtos de segunda categoria, com um custo extremamente alto. Já os “vipados”, recebem mais dinheiro como prêmio, possuem acesso à artigos de primeira qualidade, como filé mignon por exemplo, tudo isso com valores mais em conta.

Segundo uma pesquisa sobre custo de vida da FecomercioSP, que mensurou dados relativos a janeiro de 2022, a inflação pesa mais no bolso de quem ganha menos, sobretudo quando o assunto é alimentos. Para os cidadãos posicionados na Classe A, na nossa comparação os VIPs da vida real, a variação de preços impactou em 0,92% do orçamento. Já a Xepa daqueles que convivem com a realidade, ou seja, os brasileiros classificados como pertencentes à Classe D, o impacto foi de 1,61%. Ainda segundo o mesmo estudo, alimentos e bebidas são 15,65% dos gastos dos entendidos como VIPs (classe A), por outro lado, os forçados a viverem na Xepa (classe E), necessitam despender 30% de seus ganhos para comer e beber.

Portanto, assim como no BBB, para o brasileiro mais pobre, ter acesso a produtos nutritivos e de qualidade exige maior esforço, em comparação aos mais afortunados. A arte, mais uma vez, imitou a vida real, com uma sutileza que não pode passar despercebida de todos nós. A reflexão merece lugar especial para os formuladores de políticas públicas, mas também para a população em geral. Afinal de contas, até quando viveremos em um Big Brother de abissal divisão entre “vipados” e “xepados”?    

Thomaz Tommasi é Mestre em Políticas Públicas e Desenvolvimento Local, Pós-graduado em Diplomacia e Relações Internacionais e Líder MLG pelo Master em Liderança e Gestão Pública do CLP.

Compartilhe esse artigo


A Rede MLG congrega todos os líderes públicos que passam pelas formações do Centro de Liderança Pública.

Notícias Relacionadas

Experiência Internacional na Finlândia e Estônia

por gabriel.diniz

A turma 7 do MLG - Master em Liderança e Gestão Pública embarcou para a Finlândia e Estônia, em agosto de 2022, para uma missão internacional que promoveu um mergulho…

Ler mais
o-estado-de-bem-estar-social-as-tres-economias-do-welfare-state

O Estado de Bem-Estar Social: As três economias do Welfare State

por Ruan dos Santos Ferreira

O Estado é provedor de proteção social para a população, contudo, ele também as estratifica, a partir do momento que as pessoas precisam de amparo do Governo e submetem-se a…

Ler mais
mlg-6-na-blavatnik-school-of-government

MLG 6 na Blavatnik School of Government

por gabriel.diniz

Líderes públicos embarcaram para uma Missão Internacional na cidade de Oxford. Entre 11 e 15 de julho aconteceu a Experiência Internacional da turma 6 do Master em Liderança e Gestão…

Ler mais

Experiência Internacional na Finlândia e Estônia

por gabriel.diniz

A turma 7 do MLG - Master em Liderança e Gestão Pública embarcou para a Finlândia e Estônia, em agosto de 2022, para uma missão internacional que promoveu um mergulho…

Ler mais
o-estado-de-bem-estar-social-as-tres-economias-do-welfare-state

O Estado de Bem-Estar Social: As três economias do Welfare State

por Ruan dos Santos Ferreira

O Estado é provedor de proteção social para a população, contudo, ele também as estratifica, a partir do momento que as pessoas precisam de amparo do Governo e submetem-se a…

Ler mais
mlg-6-na-blavatnik-school-of-government

MLG 6 na Blavatnik School of Government

por gabriel.diniz

Líderes públicos embarcaram para uma Missão Internacional na cidade de Oxford. Entre 11 e 15 de julho aconteceu a Experiência Internacional da turma 6 do Master em Liderança e Gestão…

Ler mais

Junte-se ao CLP

Escreva seu email e receba nossa newsletter


    Siga o CLP

    Siga nossas redes sociais e fique informado