16/12/2020
Gestão Pública.

Porque ter uma Rede MLG voltada à diversidade racial: O retrato da negritude dos líderes MLG

Porque ter uma rede racial: O retrato da negritude entre a Rede MLG

Empresas, organizações e governos espelham a sociedade, tanto em suas inovações, quanto em seus retratos sociais. Dessa forma, episódios de forte comoção e repercussão social possuem a capacidade de transformar pessoas e organizações, seja para o engajamento pleno com ações concretas e criação de redes ou simplesmente gerar incômodo para situações futuras.

Neste ano, a exposição de reiterados casos de racismo institucional, dentre eles, alguns provenientes de instituições públicas, fizeram com que empresas, pessoas e governos começassem a se mobilizar perante a questão da negritude de forma mais veemente. Isso porque no Brasil o racismo tem por característica a “cordialidade”, ou seja, não é historicamente retratado e encarado de maneira explícita, nem mesmo em ambientes tidos como progressistas, como universidades. Com isso, somente a partir de casos emblemáticos e tragédias temos visto a quebra de silêncio e o debate público sobre as origens das desigualdades raciais no país.

“A diversidade é uma realidade. A inclusão é uma escolha”

 

Pessoas negras estão sub-representadas em setores estratégicos

 

As estatísticas socioeconômicas do Brasil demonstram que as desigualdades raciais estão presentes em boa parte das instituições públicas, mas sobretudo nas privadas. A iniciativa do Instituto República.Org chamada “Onde estão os Negros no Serviço Público?” reúne pesquisas do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e da Escola Nacional de Administração Pública (ENAP), dentre outras organizações sobre assimetrias que são cada vez maiores também nos cargos estratégicos das instituições públicas no país, informações estas que nos permitem inferir o quão fortemente o racismo estrutural ainda persiste nesses espaços.

Se fizermos um recorte estatístico no Brasil a partir do IBGE, veremos que um em cada 10 brasileiros são negros, porém, se o mesmo recorte for proposto em instituições como o Ministério das Relações Exteriores, órgão dedicado à carreira diplomática, a proporção é de 0.59 negros para cada 10 diplomatas. O mesmo é observado no alto escalão de empresas privadas com índices ainda menores. Ainda sobre dados estatísticos, segundo o Anuário de Segurança Pública de 2019:

 

As estatísticas escancaram: há uma sub-representação de pessoas negras em setores estratégicos e uma sub-representação de pessoas negras em espaços que se concentram a violência e a pobreza multidimensional.

 

Como trazer a distorção racial para a pauta pública?

 

Neste sentido, é crucial que organizações e agentes que atuem em prol de um serviço público eficiente, eficaz e efetivo em busca da transformação da sociedade brasileira possam trazer o debate para o campo da conscientização dos problemas sociais enfrentados pelo Brasil, mesmo diante de um cenário em que não há incentivo e prática no trato do tema. Um caminho possível talvez seja o fomento à ocupação de cargos estratégicos por pessoas negras, para que essas possam corroborar na construção de propostas e ideias que modifiquem o quadro atual, em que lideranças brancas, em sua grande maioria, decidem sobre questões raciais. Assim, é provável que pessoas que nunca foram instruídas a pensar sobre a temática possam corroborar na construção de uma sociedade mais igualitária.

Trata-se de um grande desafio, mas é possível vislumbrar avanços, como por exemplo, a da própria carreira diplomática citada anteriormente, para a qual foram criadas ações afirmativas de fomento a candidaturas negras em seu processo seletivo. Além destas, há também prefeituras e estados que destinam parte de suas vagas seja em vestibulares ou concursos públicos à pessoas negras. O percurso é longo, mas conseguir agir sobre essa realidade, trazendo luz aos dados elencados acima exige ações propositivas e anseio pela mudança, e parte disso está na construção de redes que consigam agregar e expandir conhecimento sobre o tema, além de fomentar boas práticas de pessoas e/ou organizações que lideram processos que visam diminuir as desigualdades raciais no país.

 

A formação da Rede Negritude Pública

 

Por essa razão, se mostrou primordial a criação de uma rede MLG voltada à diversidade racial, que culminou na Rede Negritude Pública, formada por pessoas negras (pretas e pardas) e por pessoas não-negras (brancas, amarelas, indígenas), que agora se dedicam a um debate sobre três pilares:

 

Assim como boa parte das organizações públicas, privadas e do terceiro setor, hoje o MLG têm trazido respostas ao racismo institucional, mas ainda conta com desafios contundentes para a formação de lideranças públicas negras, que, hoje, correspondem a cerca de 35% de todo o corpo discente. Nesse contexto, ter pessoas dentro da rede dedicadas a trazer esse debate e a formulação de ideias propositivas pode contribuir para que o CLP – Liderança Pública como um todo se fortaleça, tornando-se ainda mais inclusivo, representativo e diverso, o que trará uma riqueza ainda maior a toda a organização.

Carregar a diversidade como bandeira tem sido e será uma tendência para a próxima década em diversas organizações e governos, a sociedade civil munida de informações acompanhará cada vez mais próximo o tema. O debate social tem cobrado e, com a urgência que o tema necessita, não será possível simplesmente ignorar um racismo que se faz presente na sociedade brasileira e que afeta de maneira negativa diversas pessoas diariamente, sendo esta, a maior parte da população brasileira. O fato de termos cerceado a presença desta população em espaços decisórios, por décadas, naturalizou o silêncio que hoje tem sido rompido de maneira propositiva e necessária.

 

Por que apostar na negritude e na diversidade racial?

 

A transformação social brasileira exige compromisso com valores como a democracia, que pode ser vista como uma série de regras procedimentais, ou pode ser vista de maneiras mais substantivas, que agreguem um fomento maior à cidadania de seus cidadãos. Parte disso está em criar instituições que consigam tornar as oportunidades já existentes no país mais visíveis e concretas. Apostar na inclusão social no Brasil é garantir ganhos em escalas tanto quantitativas quanto qualitativas. A soma é positiva tanto em número de pessoas diversas sendo alcançadas, quanto a novas ideias sendo semeadas.

Em suma, o tema da diversidade racial e inclusão de pessoas negras no serviço público pode ser encarado como um grande “jogo”, o qual exige diversas reflexões, mas sobretudo vontade pela mudança, a chamada “mão na massa” para que possamos influenciar e, quem sabe, solucionar. Porém, aquele que estiver disposto a dialogar perceberá ainda que se trata de um jogo “ganha-ganha”. E, para que não nos esqueçamos do intuito de debatermos o tema e da motivação que norteou este artigo, finalizamos o texto com um trecho do início: “A diversidade é uma realidade, a inclusão é uma escolha”.

E que possamos ser também a escolha de todas e todos nós.

 

Porque ter uma rede racial: O retrato da negritude entre a Rede MLG

João Saraiva é mestre em Relações Internacionais na linha de Desenvolvimento e Desigualdades Internacionais (PUC-MG). É membro da movimentação de fomento e incentivo a lideranças negras Juventude Negra Política e palestrante em oratória política. Atualmente atua com estratégias de comunicação de impacto na esfera digital.

Marcelo Menezes é graduado em Políticas Públicas e em Ciências e Humanidades pela Universidade Federal do ABC (UFABC), certificado em Gestão e Elaboração de Projetos Sociais para o Terceiro Setor pela PUC-SP e em Gestão de Projetos de Desenvolvimento pelo BID. Em 2019, assumiu pelo CIEDS a coordenação de uma iniciativa da Secretaria Municipal de Educação e Esporte de Goiânia com a Fundação Telefônica Vivo, cujo intuito é engajar educadores para temas de Inovação Educativa.

Ambos são Master em Liderança e Gestão Pública – turma 7 do CLP – Liderança Pública e membros da Rede Negritude Pública.

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Natália Almeida Leite é jornalista formada pela FCL - Faculdade Cásper Líbero, com experiência em assessoria de imprensa, redação, marketing digital e audiovisual. Atua na Comunicação do Centro de Liderança Pública no cargo de Analista Pleno e é responsável pela produção do podcast Coisa Pública.

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