Por que é importante pensar em uma cidade para mulheres?
7/03/2022
Gestão Pública.

Por que é importante pensar em uma cidade para mulheres?

Março é o mês em que costumamos lembrar do quanto a nossa sociedade ainda precisa evoluir no tocante à igualdade de gênero. Mas em que medida isso se relaciona ao direito de as mulheres ocuparem a cidade de forma satisfatória? Como pensar em cidades para mulheres?

A autora Leslie Kern, professora de geografia e meio ambiente e diretora de estudos sobre mulheres e gênero na Universidade Mount Allison, no Canadá, traz profundas reflexões em sua obra Cidade feminista: a luta pelo espaço em um mundo desenhado por homens, que reproduzimos de forma resumida neste artigo.

Pensar nessas questões, ainda mais no mês dedicado às mulheres, é um caminho para que a gestão pública, por meio dos planejadores urbanos, possa contribuir para uma cidade mais segura e acessível a todas nós. 


Os diferentes tipos de cidades

Cidade dos homens

Primeiramente, as mulheres enfrentam uma série de barreiras na cidade que são invisíveis aos homens, o que demonstra, segundo a autora, que os principais tomadores de decisão da cidade são eles mesmos, sem se preocuparem como essas decisões afetam as mulheres. É isso que a autora chama de “cidade dos homens”. 

Cidade do medo

A autora lembra o que ficou conhecido como “paradoxo do medo das mulheres”. Pesquisas realizadas nas décadas de 80 e 90 mostram que as mulheres identificaram as cidades, a noite e os estranhos como as principais fontes de ameaça. 

Ao mesmo tempo, os dados referentes à violência doméstica mostram que as mulheres tinham muito mais probabilidade de sofrer violência por parte de um conhecido e em espaços privados.

Porém, essa situação só era paradoxal quando vista sob um prisma que ignorava as relações de poder de gênero. As experiências cotidianas das mulheres, como assobios e assédio sexual, reforçam o medo. Leslie lembra que a geógrafa Hille Koskela observa que “o assédio sexual lembra às mulheres todos os dias que elas não foram feitas para estar em certos espaços”. 

Já a violência doméstica, embora muito presente, recebe menos atenção da mídia. O medo direciona as mulheres para o lado de fora, o que as restringe, limitando o uso dos espaços públicos. 

Não é incomum que muitas oportunidades de trabalho sejam perdidas por mulheres que, constantemente, têm que pensar em deslocamentos, caminhos alternativos mais seguros, horários de saída, etc. Toda essa programação de rotas torna a existência das mulheres mais desgastante. 

Nesse tocante, as mudanças no planejamento urbano incluem, segundo a autora, melhorias na iluminação pública, limpeza de paisagens obstruídas e instalação de cabines telefônicas de emergência em locais públicos. A tecnologia pode ser uma aliada, como os aplicativos que ajudam na denúncia de assédio no transporte público. 

Leslie traz o interessante exemplo do aplicativo SafetiPin, usado em Déli. Ele coleta dados de mulheres relacionados à segurança e está sendo usado em muitas cidades em coordenação com as autoridades municipais, como Hanói e Bogotá. 

A autora lembra que quaisquer políticas e alterações de planejamento que visem a aumentar a segurança das mulheres deve examinar como os diferentes membros da comunidade serão afetados. É difícil encontrar uma solução única para todos, mas talvez uma abordagem interseccional seja possível. 

Cidade das mães

As mães experimentam atividades consideradas desafiadoras nos espaços públicos, tais como a amamentação e os deslocamentos com carrinhos de bebê em calçadas inadequadas, por exemplo. A autora menciona que sentia, durante sua gestação, que ocupava o espaço de um modo que incomodava as outras pessoas.

As cidades não foram projetadas com o objetivo de facilitar a administração da “dupla jornada” de trabalho das mulheres, uma vez que os deslocamentos são muitas vezes complexos.

Cada aspecto do transporte público lembrava a autora que ela não era o usuário imaginário ideal: escadas, portas giratórias, catracas… tudo mostrava que a cidade não foi projetada para mães e filhos.  

A autora faz uma curiosa observação: em cidades que são tomadas pela neve, as decisões sobre quais áreas priorizar para liberação revelam quais atividades são valorizadas naquela cidade. Na maioria dos casos, são liberadas primeiro as estradas que levam ao centro da cidade.

 Em contrapartida, cidades como Estocolmo adotaram uma estratégia ligada à igualdade de gênero, que prioriza, por exemplo, calçadas e zonas de creche, em reconhecimento ao fato de que as mulheres, crianças e idosos tendem mais a caminhar ou usar o transporte público, somado ao fato de que as crianças costumam ser deixadas na escola antes do expediente de trabalho. 

Questões urbanas como a gentrificação também afetam a maternidade, uma vez que, ao terem que fazer longos deslocamentos até o local de trabalho, as mães chegam em casa sem energia para brincarem com seus filhos ou ajudá-los na lição de casa. Isso só reforça o fato de que os planejadores urbanos não podem tomar o homem como o sujeito padrão e todos os demais como uma variação dessa regra. 

Cidade das mulheres e amigas

Leslie lembra que a amizade entre mulheres também molda a forma como elas se relacionam com a cidade. Por exemplo, quando pensamos em “espaços para jovens”, os tipos de espaços que vêm à cabeça são, por exemplo, pistas de skate e quadras de basquete, lugares onde, preponderantemente, predominam os homens e as meninas têm dificuldade em encontrar aceitação e segurança. 

Pensar a cidade centrada nas amizades femininas aparece, então, como uma possibilidade de torná-la mais amigável às mulheres. 

O que a autora chama de “cidade de uma” também é desafiador, pois não é fácil para a mulher trafegar em espaços urbanos públicos e privados estando desacompanhada. 


Planejando uma cidade para mulheres

O planejamento urbano precisa ser mais inclusivo, trazendo uma melhor representatividade entre os tomadores de decisão. Leslie pontua que a análise interseccional deve ser uma abordagem comum tanto para decisões grandes quanto pequenas: onde colocar uma escola primária, distância entre pontos de ônibus, etc. As mulheres precisam ter voz para mostrarem quais mudanças irão melhorar suas vidas. 

 A autora diz que não é necessário que uma planejadora urbana destrua a configuração da cidade e a comece de novo. Mas assim que a sociedade ver como a cidade é configurada para sustentar uma forma determinada de organizá-la (reforçando as questões de gênero, por exemplo), podemos começar a pensar em novas possibilidades. 

Conforme trazido em sua obra, “tudo que temos foi conquistado; nada que teremos no futuro será entregue sem luta”. Que essa luta traga, de forma prioritária, a discussão acerca das cidades voltadas às mulheres.

Leia também: Smart City: como tornar as cidades mais ágeis e plurais

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Nathalia Leone Marco é Advogada Especialista em Direito Municipal pela Escola Paulista de Direito – EPD. Analista de Políticas  Públicas e Gestão Governamental da Prefeitura de São Paulo/SP. Educadora institucional da Escola  Municipal de Administração Pública de São Paulo, na área de Direito Urbanístico. Coautora e  coordenadora do livro “A Boa Gestão Pública e o Novo Direito Administrativo: dos conflitos às melhores  soluções práticas”, da SGP – Soluções Gestão Pública. Autora de artigos jurídicos e de gestão pública.

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