Meio ambiente e Primeira Infância: a natureza como um direito da criança
15/06/2021
Gestão Pública, Primeira Infância.

Meio ambiente e primeira infância: a natureza como um direito da criança

Como era a infância de vocês? Como foi a infância dos seus avós? Como é a infância dos seus filhos? Qual a relação com a rua, as praças e o contato com a natureza de cada um?

Engana-se quem pensa que a pandemia de Covid-19 enclausurou as crianças em casa. Antes dela, as crianças já passavam em média 90% do tempo em lugares fechados: dentro de casa, da escola, do shopping, dentro do carro ou do ônibus. E, quase sempre, fazendo uso excessivo de aparelhos eletrônicos. Se por um lado o isolamento social colocou crianças e adultos em situação de igualdade na restrição da liberdade de ir e vir; por outro, o reconhecimento da falta que faz a vida ao ar livre talvez tenha sido o ponto de partida para uma nova relação de todos com o espaço, privilegiando ambientes abertos e em contato com a natureza.

Quando a criança passa a maior parte do seu tempo em um ambiente limitado, perde a oportunidade de desenvolver plenamente a inteligência do corpo. A natureza possui diversas formas, texturas e cheiros. Seu chão possui desníveis e obstáculos. Os olhos da criança veem o céu, a imensidão do espaço e o florescer da própria imaginação. A natureza por si já permite o brincar e o aprender, peças fundamentais no desenvolvimento cognitivo na primeira infância.


Natureza e Primeira Infância

O desenvolvimento da criança é integral: físico, social, emocional e intelectual. A natureza fornece os elementos para esse desenvolvimento, ao ampliar o uso dos seus sentidos. Por exemplo, seus obstáculos desenvolvem o aspecto físico e ensinam sobre frustração e autoconfiança; sua diversidade aguça a curiosidade, a imaginação e o lado cientista da criança, seus espaços permitem brincadeiras quando estão sozinhas, com a família e com outras crianças.

É também comprovado que o contato com áreas verdes são fundamentais para nossa saúde e bem estar, reduzindo níveis de stress e depressão e promovendo melhoria na imunidade e qualidade de sono.

Além disso, crescer junto à natureza faz com que se aprenda, pelo prazer, a valorizar o meio ambiente – algo fundamental para a sustentabilidade do planeta. É preciso se sentir parte da natureza para se ter atitudes corretas com relação a sua preservação. E, preservar o planeta é garantir também o nosso futuro.

Leia também: A primeira infância como prioridade nas políticas públicas: a formação de gestores comprometidos com a pauta


O emparedamento da infância

Em seu livro A Última Criança na Natureza, Richard Louv apresenta o conceito de transtorno do déficit de natureza, que se refere aos efeitos da alienação das crianças em relação à natureza, como a diminuição do uso dos sentidos, a dificuldade de atenção e o aumento nos índices de doenças físicas e emocionais.

A cada dia, as crianças estão cada vez mais limitadas em suas possibilidades de movimento: cercadas dentro de casa (o famoso chiqueirinho), presas em cadeirinhas de carro, cadeirões para alimentação e para ver televisão. Já as ruas deixaram de ser um lugar de lazer e sociabilidade, mas um espaço de passagem que nos leva ao nosso destino. Os parques e praças possuem regras e limites para a brincadeira, como não subir nas árvores. As escolas possuem quadras fechadas, com o uso predeterminado. A infância exige liberdade, mas a possui cada vez menos.

Leia também: As políticas públicas para a infância como uma oportunidade de reconquista dos espaços urbanos pós-pandemia

Enquanto temos uma menor conexão com a natureza, temos também infâncias mais conectadas ao mundo virtual. Porém uma conexão irrestrita leva a inúmeros problemas, como sedentarismo infantil, irritabilidade, dificuldade de lidar com o ócio. Além disso, enquanto o “viver no analógico” utiliza inúmeras habilidades da criança, a interação digital é limitada e preestabelecida a partir de programações.

Para reverter este quadro, a Sociedade Brasileira de Pediatria publicou um manual onde recomenda: Crianças e adolescentes devem ter acesso diário, no mínimo por uma hora, a oportunidades de brincar, aprender e conviver com a – e na – natureza, para que possam se desenvolver com plena saúde física, mental, emocional e social.

Diante desse cenário, é urgente o desenvolvimento de políticas públicas que desemparedem a infância. Segue, então, um case de um município do estado de São Paulo.


O desemparedamento da infância em Jundiaí

O Município de Jundiaí trabalha para garantir que a recomendação da Sociedade Brasileira de Pediatria seja cumprida, a partir da implementação da Política Pública da Criança na Cidade, que prioriza a ocupação de ruas, calçadas, parques e praças por crianças, com autonomia, segurança e em contato com a natureza. Para isso, criou um conjunto de ações, como:

Mais do que uma cidade para as crianças, trata-se de uma cidade boa para todos: uma cidade acessível, lúdica e saudável, que aposta na criação de boas experiências individuais e coletivas, e onde seja possível resgatar o melhor da infância de cada um.

Meio ambiente e primeira infância: a natureza como um direito da criança

Nayara Araujo é gestora de políticas públicas, com especialização em psicossociologia da juventude e MBA em gerenciamento de projetos. Hoje atua na implementação de políticas públicas voltadas à primeira infância. Sylvia Angelini é arquiteta e urbanista, com graduação e mestrado pela USP. Servidora pública na Prefeitura de Jundiaí desde 2004. Diretora de Urbanismo desde 2017 e líder MLG pelo Master em Liderança e Gestão Pública. Finalista no 2° Prêmio de Liderança Pública com a Política Pública da Criança na Cidade (2019).

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