13/11/2019
Gestão Pública.

O valor da conexão para a gestão escolar

Em tempos de Instagram, Youtube, Facebook e games, a palavra conexão geralmente vem associada à qualidade e velocidade da internet. Mas a conexão que quero discutir neste texto, como ferramenta de transformação da educação, passa longe de celulares, tablets e internet. Ela se aproxima mais da gestão escolar através do conceito de liderança adaptativa e das relações pessoais e interpessoais que acontecem dentro de um ambiente de trabalho. 

Liderança Adaptativa na gestão escolar

 

Não é preciso estudar muito sobre os desafios da educação para perceber que é consenso o papel chave do professor e do diretor de escola na melhoria da aprendizagem. As divergências existem nas políticas e prioridades de como impactar a qualidade desses profissionais: formação inicial e continuada; carreira; salário; condições de trabalho; avaliações; entre outras.

Contudo, pouco se discute sobre os relacionamentos desses agentes de transformação dentro do seu espaço de trabalho, seja consigo mesmo, seja entre pares ou com a equipe da escola. Quando a discussão contempla aspectos emocionais, a contratação de psicólogos aparece como solução mágica, como se estes profissionais tivessem superpoderes e nós, educadores, fôssemos completamente impotentes.  

 

Aprendizados do chão da escola

 

Nos últimos doze meses tive a oportunidade de mergulhar no universo da gestão escolar e viver a complexidade e a riqueza que permeia um ambiente escolar. Assumi a função de diretora adjunta de uma escola no subúrbio carioca com mais de mil alunos. Alunos de 11 a 19 anos. 

No chão da escola, o poder de transformar vidas se concretiza na nossa frente, diversas vezes por dia: desde um simples bom-dia entusiasmado, passando pela revisão da estratégia pedagógica para alunos com mais dificuldades, pelo o elogio ao esforço feito na melhoria da nota, até conversas mais sérias com os responsáveis sobre a necessidade de ajuda que aquele jovem está precisando. 

Contudo, passamos também por situações que “fogem” aos desafios previstos no job description. Crises de ansiedade e depressão estão presentes cada vez mais nos espaços escolares. Famílias disfuncionais, com ou sem recursos, que oferecem pouca estrutura emocional para as crianças também geram impacto direto no dia a dia da escola.

De fato, nessas situações, o sentimento de impotência aflora em diversos momentos. A vontade de ter um psicólogo para chamar de meu, quer dizer, da escola, aparece inúmeras vezes. Deu para sentir o quanto a demanda desse profissional é legítima. Como as crianças, professores e profissionais chegam para a aula? Como cada um se fortalece individualmente e em equipe? Como eles pensam a solução: eles fazem parte dela ou ela virá “de fora”? Era preciso inovar. 

 

Como aumentar o engajamento dos profissionais?

 

Até meados de 2019, tive a oportunidade de fazer parte de um time que trabalhou junto à Rede Municipal de Ensino de Belo Horizonte (SMED). Com o objetivo de aumentar o engajamento dos profissionais da educação através de incentivos não financeiros. O diagnóstico feito a partir de um questionário e entrevistas com mais de 100 professores da SMED nos mostrou que não havia falta de propósito entre eles, pelo contrário: todos eram orgulhosos do papel transformador que tinham em suas mãos. Tampouco havia problema de falta de dedicação, todos estavam empenhados e com frequência, sentiam o tempo voar na sala de aula. O maior desafio era a baixa capacidade de superar os problemas existentes como a falta de infraestrutura. Os desafios na sala de aula, entre outros problemas do cotidiano escolar.

O valor da conexão para a gestão escolar

Seria então a contratação de psicólogos para as escolas a solução do nosso desafio? A literatura sobre engajamento e as discussões com os próprios professores nos mostraram haver outras medidas mais simples e eficazes para fortalecer a sua resiliência.

A solução encontrada foi a construção de um processo de co-criação com diretores da SMED para a elaboração de um plano de engajamento para a Secretaria como um todo e outro para as escolas participantes do projeto piloto. Em ambos os planos, haveria o apoio da Secretaria de Gestão de Pessoas da prefeitura. Dado o contexto de baixa resiliência, identificamos que era necessário trabalhar primeiramente o conceito de autogestão com cada um dos profissionais de forma a reconecta-los com o poder de transformação que existia dentro de cada um deles para além das condições ideais de trabalho. Além disso, com os diretores das escolas, em especial, destacamos a relevância do papel da liderança para guiar a transformação dos professores e dos relacionamentos no seu espaço escolar.

 

O protagonismo conjunto na gestão escolar

 

Em todo processo de construção do plano houve muita escuta. Não chegávamos com soluções prontas. Trazíamos algumas provocações e, a partir da experiência que eles viviam, discutimos conjuntamente como mudar a realidade. Depois de muita troca de ideias, a liderança escolheu as ações prioritárias, apresentou à toda equipe escolar e se responsabilizou de implementá-las ao longo do ano. Todos se sentiram reconhecidos e protagonistas do processo. 

Em paralelo, tive a oportunidade de fazer o mesmo na minha escola. Fizemos o “Café com a direção”, um encontro onde todos os professores puderam apontar oportunidades de melhorias na escola e potenciais soluções.

Os professores elogiaram muito e se propuseram a fazer diferentes projetos extras como feira das profissões, show de talentos, debates diversos, jornal da escola, entre outras iniciativas. A energia na escola mudou. Paramos de discutir só problemas. Passamos a nos unir também na construção de algo positivo que nós havíamos pensado em conjunto. Eles se sentiram ouvidos e reconhecidos. O mesmo foi feito com os alunos e entre as iniciativas escolhidas fechamos a realização de dias temáticos na escola. A realização do projeto da Roda com as alunas do 9º ano onde elas se reúnem semanalmente para discutir seus sentimentos, fizemos também palestras sobre depressão e crise de ansiedade e montamos um mural para eles poderem expor as ideias deles. Até hoje chegam ideias novas para melhorarmos o ambiente escolar. 

 

A mudança de ponta a ponta

 

Dessa forma, posso dizer que se já era claro para mim a necessidade de uma agenda de reformas nacionais e subnacionais que chegassem às salas de aula. Tornou-se prioridade fortalecer as mais diferentes conexões que existem em um ambiente escolar. É preciso que a mudança aconteça nos corredores, nas salas de professores, na coordenação, nos pátios, em todos os espaços.

As pessoas precisam estar conectadas com seu propósito, compartilharem valores semelhantes, se sentirem ouvidas, agentes protagonistas da solução e serem reconhecidas por isso. Não cabe mais serem apenas cumpridoras de tarefas ou apontadoras de problemas. Para as lideranças, se por um lado o desafio aumenta, o resultado deste fortalecimento das relações no ambiente de trabalho trará um grande impacto na aprendizagem dos alunos. E as soluções estão muito mais próximas do que parece.


 

Carla Juca, é economista formada na UFRJ e com mestrado na USP. Ela também tem pós-graduação em gestão escolar, pela Fundação Pitágoras e é líder MLG, pelo Master em Liderança e Gestão Pública. Atualmente está como diretora adjunta de uma escola privada da Rede de Ensino Elite do grupo Eleva Educação.

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