29/10/2020
Gestão Pública.

O protagonismo da liderança feminina no combate aos incêndios florestais que assolam o país

A liderança feminina no combate aos incêndios florestais do país

Os incêndios florestais já dominavam o noticiário, quando uma de nós presenciou uma amiga saindo de um combate. Aquela cena, que poderia ter sido passado batida, foi um tanto impactante, em razão da baixa presença de liderança feminina. Este episódio foi o estalo para contarmos a realidade de mulheres que atuam nas diversas frentes deste trabalho tão crucial para a manutenção da nossa biodiversidade.

É fato, não tínhamos a mínima ideia do que encontraríamos. Para isso, mergulhamos em mais de 30 horas de entrevistas, algumas delas emocionantes, outras descontraídas, mas todas inspiradoras. Neste trabalho, apresentamos Bianca, Roxane, Luisiana, Lucila, Cláudia e tantas outras lideranças femininas fantásticas que tiveram a disponibilidade – e também a coragem – de compartilhar suas jornadas.

 

Três mulheres e uma missão

 

Bianca Tizianel é analista ambiental do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Roxane Moraes é 2º tenente do Corpo de Bombeiros Militar do Mato Grosso do Sul, em Corumbá. Já Luisiana Guimarães Cavalca, é 1º tenente do Corpo de Bombeiros do Paraná, em Maringá. Apesar da distância geográfica que as separam, as semelhanças entre elas as unem. Além de serem mulheres, gestoras públicas e lideranças femininas, as três têm 36 anos e vivenciaram em 2020 um dos maiores desafios de suas carreiras: todas estiveram no comando de equipes que atuaram no combate a incêndios florestais de grandes proporções que alarmaram o país nos últimos meses. A presença feminina no trabalho de preservação da fauna e da flora brasileiras é minoria, que dirá na liderança de grupos.

 

Bianca, a comandante de 69 homens

 

Bianca recebeu em agosto passado a missão de conter um incêndio que atingia uma área imensa de difícil acesso no Parque Nacional da Serra da Canastra, em Minas Gerais. O agrupamento, até então formado por 36 brigadistas, ganhou reforço de militares do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais. Eram 69 homens e duas mulheres sob o comando de Bianca. Sim, 69 homens liderados por UMA mulher. Entre as missões, estava a de conter o avanço das chamas no Vão dos Cândidos, área intangível do Parque, dedicada à total preservação, sem acesso de equipe de pesquisadores, de funcionários e tampouco do público.

Bianca Tizianel no combate às chamas. Foto: Arquivo Pessoal

 

Os desafios superados em oito dias de trabalho intenso

 

Após um reconhecimento aéreo, foi identificada a possibilidade de controle com posicionamento das equipes no Córrego dos Coelhos. Na avaliação da analista ambiental, se o fogo ultrapassasse o local, chegaria a uma área de mais difícil controle. O combate contou com apoio de três aviões, que faziam os lançamentos de água nas linhas de fogo, e de um helicóptero, destinado ao transporte das equipes, além de 17 viaturas, incluindo caminhonetes, caminhão pipa, Marruá (utilitário militar) e uma ABT (auto bomba tanque) do Corpo de Bombeiros.

As estratégias estão sempre relacionadas à dinâmica dos incêndios florestais. O Parque está inserido no bioma cerrado, com uma grande área de campo limpo, de altas altitudes e com vento que pode chegar a 30km/h. “Nossa missão é executar ações na mesma velocidade em que o incêndio se desloca e muda de comportamento. Trinta de decisões acertadas fazem toda a diferença. É uma linha muito tênue entre ter uma situação controlada ou perder completamente o controle e ficar mais sete dias trabalhando”, ressalta a analista, que é bióloga e mestre em Ecologia e Conservação.

Neste episódio, as chamas consumiram quase 24 mil hectares do Parque e, após oito dias de trabalho intenso, a missão foi considerada um sucesso. “Mesmo assim é um desafio pessoal por conta de a gente nunca se sentir capaz o suficiente. E também no sentido cultural de que, geralmente, no combate a incêndio, temos homens atuando e no comando. A gente é sempre desacreditada por ser mulher”, analisa Bianca.

 

“Eu passo os mesmos perrengues”

 

Natural de São Paulo e mãe de duas meninas, de quatro e nove anos, ela trabalhou durante dois anos na Amazônia antes de se mudar para São Roque de Minas, um pequeno município de Minas Gerais, com 6,5 mil habitantes. Mas a decisão de fazer o curso de brigadista não foi fácil. Eram 20 alunos e 15 instrutores, nenhuma mulher. “Uma das coisas que mais me afligia era eles me tratarem de maneira diferente por ser mulher. Não teve nenhuma diferença e foi a melhor decisão que já tomei”, recorda.

Hoje, ela diz já saber quais problemas poderá ter, então trabalha para preveni-los, a começar na pré-seleção física do curso de brigadista, em que atua como instrutora. “Eu me apresento e falo: Se você tem problemas em ser comandado por uma mulher, esse não é seu trabalho. Volte em outro momento, quando eu não estiver mais aqui”.

Bianca é gestora, mas coloca a mão na massa. Ela atua no dia a dia de combate a incêndios, fazendo uso dos mesmos equipamentos que o restante da equipe, como abafador, soprador costal e bomba costal, que, quando cheia, pesa em torno de 23 quilos. Cabe ressaltar que ela tem 1,61cm e 54 quilos. “Eu passo os mesmos perrengues. Na hora em que eles me veem com equipamento completo, é como se ganhasse respeito. Não é meu perfil ficar sentada, olhando e mandando”, diz.

 

Roxane, gestora com grandes responsabilidades

 

Tenente Roxane atuou na primeira fase da Operação Pantanal, coordenada pelo Ministério da Defesa, como comandante de uma Guarnição de Combate a Incêndio Florestal (GCIF). No início da manhã de 6 de agosto, o satélite mostrava pontos de calor na região do Morro do Sargento, localizado, em linha reta, a seis quilômetros de Corumbá (MS), mais ao norte da cidade, uma região com predominância de onça-parda, onça-pintada, tuiuiú, jacaré, entre outras espécies. Imediatamente, ela e os 11 homens do Corpo de Bombeiros e da Marinha partiram de helicóptero do Aeroporto Internacional rumo a um dos pontos indicados.

A identificação inicial apontava que o foco se encontrava a dois quilômetros do ponto de pouso. E a equipe começou a fazer a incursão a pé para acessá-lo, sendo necessário cruzar uma área de mata fechada. Em uma hora conseguiram avançar apenas 150 metros. “Não conseguiríamos acessar o foco até a extração, prevista para às 16h daquele dia”, lembra Roxane.

Naquele momento, ela reuniu a equipe e definiu que iria solicitar o reposicionamento dentro do terreno com auxílio do helicóptero. Até que, ao retornar ao ponto inicial para buscar alguns equipamentos que haviam ficado para trás, um colega ouviu alguns “estalos” e, imediatamente, comunicou a comandante. “Voltei com ele e observamos que um foco que não tínhamos visto estava a menos de 150 metros de nós. E se aproximava com rapidez em razão do vento”.

 

Luta pela sobrevivência em mata fechada

 

A equipe estava encurralada entre o fogo e a mata fechada. Naquele momento, a luta passou a ser pela sobrevivência com um desafio enorme: reservar uma área para que todos ficassem em segurança e outro campo para que o helicóptero pudesse descer. Para não comprometer o funcionamento da turbina, a aeronave não faz pouso em área recém queimada.

A liderança feminina no combate aos incêndios florestais do país
Equipe comandada pela tenente Roxane. Foto: Arquivo Pessoal

“Fizemos uma linha distribuindo os militares ao longo dela, sendo que cada um seria responsável por evitar o avanço do fogo pelo tempo necessário até a extração de campo, munidos de galho com folhas, que desempenharam a função de abafadores. Decidi que seria a última a deixar o local do combate ao incêndio”, relata. Roxane diz que chegou a repensar seu papel na missão.

“No momento em que decidi ir para outro local, depois de ter definido uma estratégia de atuar onde as labaredas estavam menores, senti o peso de ser de comandante. Eram 11 vidas sob a minha responsabilidade, 11 famílias, além da minha. Mas, se eu fiz essa escolha há cinco anos, tinha de honrar a minha farda e os militares que dependem das minhas decisões. Ter coragem não é opção”, afirma a militar, que é bacharel em administração de empresas e também tem pós-graduação em Gestão e Segurança Pública.

Com apenas duas mulheres num universo de 60 homens no Corpo de Bombeiros de Corumbá, Roxane revela que comumente se percebe com características rotuladas como masculinas. “Não é possível ser gentil e simpática em demasia. Pode soar mal. É preciso ser convicta, não titubear. Senão, pode ser mal interpretada e ter sua autoridade em certas circunstâncias questionada”, declara a tenente, que destaca que o apoio do marido é crucial. Maquiagem ela dispensa em razão da transpiração, mas não abre mão da unha vermelha, brincos e do cabelo arrumado.

 

Luisiana, líder de uma equipe inteiramente masculina

 

Foi o desejo de ser salva-vidas que levou a educadora física Luisiana Guimarães Cavalca ao Corpo de Bombeiros do Paraná. Para isso, precisaria garantir a aprovação no curso de formação de oficiais. Estudou, se preparou e ainda passou em primeiro lugar.  Dez anos após a formatura, em 14 de setembro deste ano, recebeu uma importante missão: no dia seguinte embarcaria para o Pantanal para atuar no combate aos incêndios florestais. E mais: lideraria uma equipe formada por 26 homens, destes, nove fuzileiros navais e três bombeiros do MS.

Desde Paraná em Flagelo – incêndios florestais que ocorreram no Estado em 1963 e que causaram uma tragédia sem precedentes – 110 mortes e 10% do território do Estado foi consumido pelas chamas, bombeiros do Paraná participam de formações focadas em incêndios florestais.

Não foi por acaso que a tenente Luisiana foi escolhida liderar. Tem no currículo curso de prevenção e combate a incêndio florestal, pós-graduação em educação ambiental e, neste ano, concluirá outra pós em prevenção e combate a incêndio florestal.

Tenente Luisiana em missão no Pantanal. Foto: Arquivo Pessoal

Os momentos mais tensos da missão no Pantanal

 

Fazia dois dias que a sua equipe estava atuando na Serra do Amolar (MS), quando começou um foco de incêndio em uma lixeira na base do Instituto Homem Pantaneiro, que se deslocava em direção à morraria. E foi justamente este episódio que ficou na memória da tenente e é tido como um dos mais desafiadores durante os 25 dias em que permaneceu no Pantanal.

A equipe atuou basicamente no combate e na queima controlada, técnica com uso do fogo em pequenas faixas do terreno para eliminar a vegetação que é um verdadeiro combustível para incêndios. Desta forma, quando os focos chegam a essa faixa queimada, não há mais combustível, e o incêndio é contido.

“Estava sem a guarnição dos bombeiros, somente com civis e fuzileiros navais, que não portavam equipamentos de proteção individual. Era um lugar muito próximo de onde a gente tinha de proteger, o lado da Baía Mandioré (fronteira de Brasil e Bolívia). Fiquei bem receosa de iniciar a queima controlada, mas, ao mesmo tempo, sabia que precisava. Assim que os bombeiros chegaram, fizemos a ação, mas até sabermos que daria para controlar o fogo, fiquei muito preocupada. Foi, sem dúvida, o momento mais tenso”, lembra.

 

O suporte da família

 

“Você tem certeza que vai?”, “E seus filhos?” Foram perguntas que a tenente ouviu pouco antes de embarcar para o Mato Grosso do Sul. “Se eles me aceitaram como mulher, eu vou. Eu dou jeito”, respondeu. “Eu levo minha barraca e acampo no quarto”. Em combates a incêndios florestais, nem sempre há alojamentos para homens e mulheres.

Casada com o capitão Alexandre Cavalca, a tenente é mãe de Miguel, 5, e Sara, 2, e revela que o suporte e o incentivo da família foram cruciais para que ela partisse para uma das missões mais importantes de sua carreira. Não à toa, a nossa entrevista foi marcada por momentos de muita emoção, principalmente quando ela falava dos filhos, do marido, dos pais e da família do marido.

 

Bombeiras na conservação da biodiversidade

 

No périplo em busca de mulheres que atuam diretamente em incêndios florestais Brasil afora, contabilizamos mais de 30 horas de conversas e 20 entrevistas. E também conhecemos quatro bombeiras civis que atuam no Parque Estadual do Juquery, em Franco da Rocha (SP): Aurora Batista (33), Camilla Lamberti (30), Jaqueline Coutinho (30) e Silmara de Lima (21). Algo incomum, pelo que pudemos constatar. Quando perguntamos se elas se imaginavam em outra profissão, nenhuma titubeou. Ficou evidenciado o orgulho que elas sentem ao desempenhar um trabalho tão importante para a conservação da biodiversidade.

As bombeiras encaram o trabalho em campo de igual para igual com os colegas homens, mas relatam algumas situações e dificuldades que, para as mulheres, são mais complicadas. Como usam um macacão, é preciso praticamente tirar toda a roupa para ir ao “banheiro” durante uma ação em campo, por exemplo. Então, fazer xixi na calça não é incomum. Apesar de exercerem um trabalho pesado, elas também não abrem mão da vaidade: “Meu rosto pode estar cheio de fuligem, mas a maquiagem sempre está intacta”, ressalta Jaqueline.

Bombeira civil na Floresta Estadual Navarro de Andrade, em Rio Claro (SP), Francisca Sousa (40) é a única mulher em uma equipe de seis pessoas. Chica como é chamada pelos colegas, faz de tudo no trabalho em campo: roça, usa a cortadeira elétrica e o abafador. Em algumas situações, confessa: “O homem não quer deixar a mulher ser mais do que ele”. Ah! E tem o banheiro, que é o mesmo para toda equipe e Chica acaba colocando ordem e pedindo para os colegas deixarem organizado.

 

Comentários machistas e as diferenças entre gêneros

 

“Você é a bombeira mais linda”, “Deixa que eu faço porque você não tem capacidade” e “É só um rostinho bonito, mas não dá conta do trabalho” são frases recorrentes que Jéssica Pinheiro (29), bombeira no Parque Estadual Itapetinga e no Monumento Natural da Pedra Grande, ambos em Atibaia (SP), já ouviu no exercício do trabalho. “Apesar dessas situações, sei que sou uma inspiração para outras mulheres. A sociedade coloca limite na gente, mas é a gente quem tem que colocar nossos limites”, declara a bombeira, que hoje diz trabalhar com uma “equipe maravilhosa”.

Bianca Longato (19), que atua na Estação Ecológica de Barreiro Rico (SP), também diz ter vivenciado uma situação bastante constrangedora durante um treinamento em altura. Num dado momento, um colega fez um comentário acerca do seu corpo e ainda tirou uma fotografia. Por um momento, a situação a fez pensar em desistir, mas decidiu conversar com ele, reprovando tal atitude. “O apoio dos outros colegas homens foi o que me deu força para enfrentar a situação e expor o meu incômodo”, afirma.

 

A importância da liderança feminina nos bastidores

 

É certo que a liderança feminina no combate a incêndios florestais ainda é uma exceção. No entanto, o trabalho de combate ao fogo vai além e requer uma força-tarefa que envolve diversos órgãos e outras funções. Para isso, a incumbência de organizar as equipes e articular os atores é fundamental. “O papel das mulheres nos bastidores é tão importante quanto daquelas que estão na linha de frente”, afirma a ecóloga e mestre em ciências florestais Lucila Manzatti (57), diretora de 51 Unidades de Conservação da Região Metropolitana e Interior da Fundação Florestal, e que também comanda a .

 

O papel da mulher no apoio de equipes

 

Quando Lucila chegou na Estação Ecológica de Jataí, a maior área de cerrado no interior do Estado de São Paulo, em Luiz Antônio, logo se perguntou qual papel poderia ser dela. Num primeiro momento, foi para o combate, mas percebeu que sua participação poderia ser muito mais efetiva de outra forma. Foi quando assumiu funções no apoio tão necessário às equipes, como distribuição das marmitas para os brigadistas, organização das hospedagens, comunicação com a comunidade e também mobilização da população por doações de frutas, água e suco aos brigadistas.

A gestora relata ainda que observou o protagonismo e o despertar de mulheres jovens da comunidade na mobilização dos comerciantes para conseguir as doações para os brigadistas e também hospedagens. A sua indispensável atuação nos “bastidores” só reforça algumas de suas características, a de provedora e facilitadora para que as ações aconteçam, e de que, mesmo em um combate a incêndios florestais, ela não precisa ser diferente do que realmente é.

Lucila era uma das duas mulheres que atuaram no referido episódio. A outra era Alessandra Pinezzi (42), que estava a 50 km de distância da Estação Ecológica de Jataí e que teve um papel fundamental, fazendo toda a articulação entre os diferentes órgãos. “Eu fazia um telefonema a um parceiro solicitando um caminhão pipa, ao mesmo tempo em que respondia uma mensagem sobre a marmitex”, narra. E Alessandra provavelmente só teve uma resposta rápida e positiva dos parceiros para as demandas necessárias nestes momentos em que as decisões devem ser urgentes e a presença dos equipamentos adequados também, devido ao relacionamento que construiu ao longo de um ano em Luiz Antônio e região enquanto também esteve como gestora da Estação Ecológica de Jataí.

 

Características femininas são determinantes para uma boa gestão

 

Consciente de que, no meio profissional, muitas vezes as mulheres têm de provar de que são capazes de executar suas atividades, Alessandra já “conquistou” o respeito na área em que atua. Bióloga e gestora da e da Estação Ecológica de Ribeirão Preto (SP), nos mostra que a capacidade de resiliência, a habilidade em lidar com o “não”, a forma de abordagem com a comunidade do entorno e a construção de um ambiente agregador, características bastante femininas, são necessárias para uma boa gestão das áreas protegidas e se mostraram imprescindíveis neste e em outros episódios de incêndios florestais.

Em diversos momentos, Natália Poiani (34) foi a única liderança feminina nas equipes de brigadistas, servidores da Fundação Florestal e funcionários das usinas de açúcar localizadas no entorno do Parque Estadual do Aguapeí, em Nova Independência (SP). “Atuar em duas ocorrências exigiu muito ‘jogo de cintura’ (leia-se flexibilidade, maleabilidade e ponderação) para expor minhas preocupações com a área protegida e visão sobre os direcionamentos dos esforços, uma vez que todos os parceiros envolvidos nos combates possuíam uma organização interna e protocolos próprios”, diz Natália, que também é bióloga e mestre em geografia.

Ainda que sua palavra fosse considerada, ela, que é gestora do Parque há quatro anos e meio, relata que acompanhar os trabalhos e estar entrosada com as equipes em campo, geraram confiança e fluidez nos trabalhos, aumentando a credibilidade da presença feminina neste ambiente predominantemente masculino.

 

Cláudia Gaigher: para além da notícia

 

A poucos metros das labaredas de fogo no Pantanal, a jornalista Cláudia Gaigher (TV Globo), com os olhos ardendo e no meio das cinzas, se arrisca para narrar mais um dos episódios que compõem a maior tragédia ambiental da história na região. Somente este ano, mais de 27% do bioma já foram consumidos pelas chamas, o que equivale a mais de 4 milhões de hectares.

A atuação da jornalista não se limita apenas a noticiar os dramáticos incêndios que têm atingido o Pantanal nos últimos anos. Por entender que no Brasil não há uma estratégia de governo para prevenção e combate aos incêndios, tanto que o Pantanal tem recebido brigadistas de outras regiões do país, que se mobilizam apenas quando a situação está instalada, é uma das apoiadoras da Brigada Alto Pantanal – Haroldo Palo Jr. O projeto, idealizado pelo documentarista Lawrence Wahba e pelo presidente do Instituto Homem Pantaneiro, ngelo Rebelo, já capacitou 20 moradores da região como brigadistas e, por meio de doações, está comprando os equipamentos e garantindo o pagamento dos brigadistas. Cláudia também apoia a iniciativa do SOS Pantanal, que tem atuação semelhante na formação de brigadistas para trabalhar nas regiões atingidas.

A jornalista também é uma estudiosa e procura compreender e divulgar os motivos que têm levado o bioma a sofrer com a falta de chuvas, como o desmatamento nas áreas de cerrado e na floresta amazônica. Há 21 anos, sua luta é para pensarmos no Pantanal como um sistema integrado a outros biomas, precisamos entender essa relação. Ela narra que os rios pantaneiros nascem na borda, fora da planície.

A liderança feminina no combate aos incêndios florestais do país
Jornalista Cláudia Gaigher sobrevoa área de incêndio no bioma Pantanal. Foto: Arquivo Pessoal

Fazem parte da Bacia do Alto Paraguai na área de cerrado, e atividades agropecuárias avançam sobre essas nascentes e ameaçam a oferta de água para os rios. Tem ainda questões relacionadas ao clima. A chuva que alimenta o Pantanal vem dos rios voadores da Amazônia, que estão com redução de umidade por causa do desmatamento, incêndios e das correntes do Atlântico Norte. Mas, com o oceano mais aquecido, chega menos umidade e chuva para a planície pantaneira. “Se não pensarmos em ações de conservação e recuperação integradas, as áreas úmidas serão as primeiras a desaparecer com as mudanças climáticas e este ecossistema único, que é o Pantanal, vai ser alterado afetando biodiversidade e o serviço ambiental que este bioma hoje presta”, considera.

 

O retrato dos incêndios florestais pelo país

 

Segundo dados Instituto Nacional de Pesquisa Espaciais (INPE), somente este ano foram mapeados 198.856 focos de incêndio no Brasil (dados até 27 de outubro de 2020), sendo setembro o mês com maior número de registros. As regiões norte e centro-oeste foram as mais atingidas do Brasil: os Estados do Mato Grosso e Pará correspondem a 38% do total dos focos detectados e, dentre os biomas brasileiros, a Amazônia (46%) seguida do Cerrado (29,7%). No entanto, o Pantanal, 3º bioma mais atingido (10,6%), teve este ano o maior número de focos desde 1998.

Em relação às Unidades de Conservação, os focos ocorridos na Área de Proteção Ambiental Triunfo do Xingu, no Pará, corresponderam neste ano a 42% do total de focos nas Unidades de Conservação (UCs) Estaduais. Dentre as UCs Federais, no período de janeiro a outubro de 2020, a Reserva Extrativista Chico Mendes foi a área mais afetada (15,3%).

As Terras Indígenas Parque do Xingu, no Mato Grosso, e Parque Nacional do Araguaia, no Tocantins, foram as que mais sofreram e correspondem a pouco mais de 20% do total de focos ocorridos até o final de outubro em terras indígenas.

Incêndio na Serra do Amolar. Foto: Arquivo Pessoal

O futuro que nós queremos

 

Com o cenário apresentado, fica evidente a quantidade de profissionais que são mobilizados para atuar nos combates, seja na linha de frente, na coordenação, no suporte, nas pesquisas ou na prevenção. Apesar do vasto campo de atuação junto aos incêndios florestais, o que vemos é que a liderança feminina ainda é pequena.

Em 18 de setembro, solicitamos ao ICMBio e ao Ibama o número de mulheres e homens que trabalham nestas funções, mas até o fechamento deste artigo – mais de um mês depois – os dados não haviam sido disponibilizados. Na equipe de Bianca Tizianel, por exemplo, das 35 pessoas que ela lidera, três são mulheres (8,5%). Na , responsável pela gestão das Unidades de Conservação do Estado de São Paulo, dos 32 bombeiros civis contratados, aproximadamente 20% são do sexo feminino.

Os desafios são muitos: deixar a família por alguns dias ou quase um mês, não ter condições “adequadas” de trabalho, ter de mostrar que é capaz, lutar para conquistar o respeito dos colegas. Mas, quando há paixão pelo que se faz, tudo isso se torna irrelevante, porque, como bem refletiu Lucila: “No fundo somos todas muito parecidas, e o que muda pode ser uma ou outra estratégia que usamos, mas temos liderança, iniciativa e presença”.

Em agosto passado, a Secretária estadual de Desenvolvimento Econômico de São Paulo, Patrícia Ellen, disse uma frase no centro do Roda Viva, da TV Cultura, que queremos resgatar: “Eu tenho duas filhas e todo dia eu olho e penso: como eu posso criar um ambiente que dê mais espaço para as mulheres?”. Inspiradas em Patrícia, questionamos Bianca Tizianel, que abriu este artigo e que também é mãe de duas meninas, sobre o mundo que ela sonha para elas. A analista ambiental foi taxativa: “Que suas vozes sejam ouvidas, suas vontades atendidas – tomara que não precise ser no grito – e que elas possam gostar do que quiserem, trabalhar onde quiserem, sem medo de fazer coisas por serem mulheres”.

Este é nosso sonho também. Para todas as meninas e mulheres.

 

Aline Mendes é jornalista e pós-graduada em Marketing e Mídias Digitais (FGV). Atua como assessora parlamentar de Comunicação na Assembleia Legislativa gaúcha e é uma das co fundadoras da Rede Mulheres Públicas, que têm olhar atento ao serviço público e seus desafios de gênero. Ângela Cruz Guirao é bióloga, mestre em geografia e doutora em Ciências (UNICAMP). Atua desde 2008 na Secretaria do Verde, Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável, da Prefeitura de Campinas. Há três anos, está como diretora, coordenando as áreas de planejamento ambiental, tecnologia das informações ambientais, áreas verdes e gestão de espaços especialmente protegidos. Integra o Coletivo Mulheres do Meio: Trajetórias ambientais. Ambas são da Turma 7 do Master em Liderança e Gestão Pública, que conta com maior percentual de mulheres em sua composição.

 

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Natália Almeida Leite é jornalista formada pela FCL - Faculdade Cásper Líbero, com experiência em assessoria de imprensa, redação, marketing digital e audiovisual. Atua na Comunicação do Centro de Liderança Pública no cargo de Analista Pleno e é responsável pela produção do podcast Coisa Pública.

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