CLP – Aproximando o poder público municipal e o cidadão - Entrevista com Michael Guedes
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Aproximando o poder público municipal e o cidadão - Entrevista com Michael Guedes

08/11/2018 -

 

 

O CLP conversou com o Secretário de Comunicação Social de Juiz de Fora (MG), Michael Guedes, que implantou no município o Projeto Bem Comum que estimula boas práticas e a parceria entre a gestão pública e comunidade. Michael, que é líder do Master em Liderança e Gestão Pública (MLG), falou sobre o início, os desafios e o crescimento do projeto, que impactou toda a estrutura de gestão do município. Confira como foi o bate-papo com ele

 

De onde surgiu a ideia do Bem Comum?

 

Juiz de Fora era uma cidade que tinha uma autoestima muito baixa e era, por tradição, muito crítica. A população também estava descrente com a política por conta de acusações de corrupção em gestões anteriores, o que abalava a relação da administração pública com a comunidade. A gente já fazia esse diagnóstico mas, com as manifestações de junho de 2013, percebemos que existia um represamento geral de uma insatisfação popular contra o poder estabelecido. Ao mesmo tempo a gente tinha um mecanismo novo, que ninguém estava acostumado a lidar, que é a participação direta do cidadão pelas redes sociais. Com esse desafio de promover a aproximação entre poder público e cidadão, tendo, ao mesmo tempo, esse veículo que permite ao cidadão acessar diretamente o poder público, a gente sabia que precisava criar uma estrutura diferente para que a comunicação pública se desse de forma efetiva.

 

E que estrutura é essa?

 

Se a gente não envolver a comunidade nas ações, nenhuma política pública é efetiva. No início de 2013, a comunicação era sempre chamada para as reuniões para fazer planos de comunicação que fizessem “magicamente” com que aqueles projetos dessem certo. Se dessem, mérito do projeto. Se não, culpa da comunicação. E eu sabia que o problema era muito mais profundo que isso. Era necessário criar uma estrutura que, além da preocupação de comunicar, divulgar e responder o cidadão, também o envolvesse. O Bem Comum nasceu ai.

 

Como funciona o projeto na prática?

 

Começamos trabalhando com entidades regularmente registradas na prefeitura, que precisavam de ajuda com campanhas do agasalho, doação de sangue, brinquedos, entre outras. A gente mobilizou isso através da nossa comunidade e de alguns parceiros, que percebendo que a prefeitura estava junto, tinham mais confiança em ajudar, sabendo que a destinação seria adequada.

 

Que ações já foram feitas?

 

Nesse formato, fizemos mais de 200 campanhas diferentes, que arrecadaram mais de um milhão de itens, mobilizando dezenas de parceiros que sabem que podem aderir às campanhas do Bem Comum, ou propor iniciativas. Há também um outro projeto, que é consequência deste, o Classificados do Bem. Ele surgiu porque as entidades estavam nos procurando com necessidade de determinadas funções, como um professor de educação física ou alguém que pudesse ir lá tocar um violão. Muita gente não tem dinheiro, mas pode doar o seu tempo.

 

Isso mudou a relação dos moradores de Juiz de Fora com a cidade e a gestão do município?

 

A gente foi criando na cidade uma rede de colaboração do bem. Isso promoveu o engajamento e a aproximação que a gente precisa e que  melhora toda a implantação das políticas públicas. O foco do Bem Comum não são campanhas de arrecadação, mas estimular boas práticas. A gente consegue, por exemplo, levar crianças ou idosos para o cinema ou circo que estiver na cidade. Conseguimos também mobilizar a imprensa de uma forma diferente, sem aquela barreira institucional. Porque não é a prefeitura que está fazendo, é o Bem Comum. O prefeito nem aparece e quando vai a algum evento é como convidado. Todo mundo já percebeu, durante esses quase cinco anos, que o intuito do programa é fazer algo bacana. A gente já observou, por exemplo, que toda vez que a gente faz alguma ação, a tensão nas redes sociais é aliviada.

 

O Bem Comum acabou então dando origem a outros projetos?

 

Além do Classificados do Bem, surgiu também o Bem Comum Bairros, inspirado num projeto desenvolvido no município de Pelotas. A gente customizou essa proposta aqui, com a TV Integração como parceira, levando serviços para os bairros e, ao final, fazendo uma plenária com o prefeito respondendo às demandas daquela comunidade. Conseguimos, em 2016 e 2017, fazer edições mensais, o que criou uma aproximação do gestor com as comunidades. Agora em 2018, ao invés de um dia só, estamos fazendo uma semana inteira de atividades em comunidades que precisam dessa intervenção, com projetos que vão de lazer até capacitação profissional e conscientização ambiental. E procuramos sempre deixar algum legado para aquela comunidade. Um outro projeto é o Bem Comum Lazer, que é uma apropriação do espaço público pela comunidade, que já estamos fazendo há mais de dois anos na principal avenida da cidade.

 

Isso impactou também nas outras estruturas da gestão?

 

Hoje a nossa secretaria, muito mais que de comunicação social, é uma secretaria de comunicação pública e engajamento. A gente absorveu também a central de atendimento e os centros administrativos regionais. Com isso, trouxemos também para a nossa estrutura o atendimento da Lei de Acesso à Informação e a nossa prefeitura hoje é nota 10 em transparência. O Bem Comum é uma estrutura que a gente utiliza para pavimentar toda essa costura de transformar uma comunicação social tradicional em uma comunicação pública com capacidade de mobilizar e engajar, para que ela seja de fato efetiva. Não conheço outra estrutura como essa no Brasil.

 

Michael Guedes é pai, jornalista, professor e funcionário público que quer fazer diferente e fazer diferença de dentro para fora para comunicar, aproximar e atender melhor e assim mudar realidades.